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Crias além do Curro: Artistas passaram pelo Curro Velho e hoje compartilham trajetórias de sucesso

De instrutor de bateria com experiências internacionais a ator mirim prestes a estrear série na Netfilx, conheça a história 'das crias' que ganharam o mundo
Por Mauricio Carvalho (FCP)
19/03/2025 15h16 - Atualizada em em 19/03/2025 15h20


O Curro Velho, administrado pela Fundação Cultural do Pará (FCP), é responsável direto por diversos projetos de iniciação artística através do seu Núcleo de Oficinas, que oferece diversas atividades ao longo do ano, no bairro do Telégrafo, em Belém. O prédio histórico construído, no ano de 1861, para abrigar o primeiro matadouro público da cidade, após restauração em 1991, se tornou um verdadeira usina de geração de talentos ao passar a abrigar a sede do Curro Velho. 

Responsável por apresentar o mundo das artes para milhares de crianças ao longo de 34 anos de existência, as chamadas “Crias do Curro”, nome dado para quem já fez alguma oficina na instituição, ao frequentar as oficinas têm a oportunidade de explorar as mais diversas linguagens e formas de arte como teatro, dança, circo, música, e artes visuais. 

Jurandir Brígida de Sousa, também conhecido como “Mestre Muka”, é instrutor de bateria no Curro Velho há mais de 30 anos, e fala com orgulho sobre o papel que o Curro Velho desempenha na vida de quem já passou pela instituição.
“A importância das oficinas de iniciação artística do Curro Velho na sociedade paraense, é muito grande, porque aqui as pessoas têm a oportunidade de descobrir os seus talentos. Nós temos testemunho de pessoas que começaram aqui no Curro Velho, fizeram capacitação e hoje em dia  são grandes profissionais", diz o instrutor Mestre Muka.

Um exemplo da fala de Mestre Muka, é Pawer Martins, de 33 anos, que entrou na instituição, pela primeira vez aos 13 anos de idade, e, de 'cria' passou para criador e se tornou instrutor de bateria no Curro Velho, além de ser  diretor musical e jurado de bateria no Carnaval de Belém.

Aos 15 anos, ainda como 'cria', Pawer Martins, foi convidado para ser mestre de bateria-mirim no Curro Velho, onde ganhou seu primeiro cachê artístico e conseguiu graças ao seu talento e esforço comprar o primeiro aparelho de televisão da sua casa. Ele relembra com emoção o momento, “sempre morei nas pontes da Vila da Barca e não tínhamos uma TV em casa, então na primeira oportunidade, graças ao cachê do Curro Velho, eu pude dar uma de presente para minha mãe”.

Pará, Brasil, Mundo 

Vivendo exclusivamente da música e arte, Pawer já teve a oportunidade de viajar pelo Brasil e pelo mundo fazendo apresentações artísticas. Ele destaca que o Curro Velho sempre fez parte da vida dele e quando criança conciliava os estudos com as oficinas.

“O Curro Velho entrou na minha vida aos 13 anos, através da bateria e da iniciação artística. Com 14 anos, fiz várias oficinas de bateria, percussão, teatro, dança, música, artes visuais, e assim foi o meu processo dentro da fundação, eu passava o dia inteiro lá”, recorda Pawer Martins.

Ele enfatiza as oportunidades que surgiram e frisa que todas 'as crias' também são observadas pelos seus instrutores para possíveis novas oportunidades como monitores de apoio e até mesmo para integrar a equipe de profissionais do Curro Velho.

Pawer relembra também que quando criança até discriminava o universo das artes, mas foi justamente o aprendizado sobre as linguagens artísticas que ampliou sua consciência e lhe serviu de refúgio diante da violência que encontrava na periferia.

"Eu não gostava de arte, tinha até um pouco de preconceito, quando criança, morador da Vila da Barca por toda a questão de violência que acontecia nas ruas da periferia como tiroteios, drogas, mortes, entre outras situações. A arte era uma coisa que nunca pensei em fazer, só queria saber de estudar”.

Além de trabalhar no Curro Velho, Pawer Martins, pelo terceiro ano consecutivo, será jurado de bateria no Carnaval de Belém.

"Estou como jurado do Carnaval de Belém por conhecimento e currículo cultural que eu tenho graças a minha história e tudo que eu aprendi dentro do Curro Velho e da Fundação Cultural", diz o músico.

O menino Léo Farias, 10 anos, também é aluno do Curro Velho, desde de 2020. Após passar pela instituição, ele já teve a oportunidade de fazer vários trabalhos no audiovisual paraense.

Ele já fez, por exemplo, uma participação especial na minissérie “Pssica", do escritor paraense Edyr Augusto. A série é da Netflix, e gravada em Belém no ano passado (2024).

Ele também fez outros dois projetos, um filmes de curta metragem chamado “Matriarcas da Amazônia” e a série “Meninos Negros”. Os dois trabalhos vão estrear este ano.

Além do audiovisual, Léo também teve a sua estreia no carnaval de Belém no ano passado, onde representou “Ronaldo Silva” na comissão de frente da Escola de Samba Bole Bole. Neste ano de  2025 ele e sua irmã Neila Farias já estão confirmados como o segundo casal de mestre sala e porta-bandeira também na escola de samba Bole Bole.

Com passagens pela Escola de Teatro e Dança da UFPA (ETDUFPA) e outras casas de artes cênicas de Belém, atualmente Léo é aluno do “Coletivo de Teatro Cartase” - um grupo de teatro da periferia de Belém - e estará em cartaz esse mês nos dias 28 e 29 de março no Teatro Waldemar Henrique com o  espetáculo  “Licença para Chegar”. Ele vai ser o protagonista da história que fala sobre um grupo de jovens que fazem arte na periferia e tudo que eles precisam enfrentar para continuar existindo.

Léo destaca que foi no 'Curro', com as oficinas de iniciação artística. “Eu sou grato ao Curro Velho por ter me dado a oportunidade de conhecer o mundo das artes e aos meus pais e professores que sempre me apoiaram durante toda minha trajetória”.

A mãe de Léo, Adriane Pantoja, 35 anos,  também foi aluna do Curro Velho na adolescência e destaca o papel fundamental que a instituição teve na sua vida e, atualmente, tem na vida dos filhos dela. 

“O Curro Velho foi importante na minha vida. Através dele eu fiz teatro, dança, reciclagem e várias outras coisas. Isso me tirou da rua, porque eu era uma criança “rueira”. E, foi através das oficinas que eu fui começando a gostar de quadrilha e me interessando pelos outros cursos”.
Adriane ainda enfatiza a importância do trabalho. “O Curro Velho é importante, ele vem da época da minha avó, da minha mãe, passou por mim e eu estou passando para os meus filhos. Eu incentivo todas as crianças a irem para lá”.

Ela comenta que hoje em dia tem amigos que passaram pelo Curro e, atualmente, são professores da instituição. “Tenho alguns amigos que já se foram, infelizmente. Eles fizeram outras  escolhas, apesar do Curro Velho ter lutado muito por eles. Mas, infelizmente, não deu certo. Mas eu espero que nessa nova geração os pais incentivem muito os seus filhos a frequentarem a instituoção, fazer as oficinas que são maravilhosas e gratuitas”.

"A Fundação oferece tantas coisas para os jovens hoje em dia, sabe? É importante aqui no nosso bairro. Eles tiram as crianças das ruas. Eu só tenho a agradecer tudo que a Fundação Curro Velho fez, não só na minha vida, mas da minha avó, da minha mãe, e agora na nova geração dos meus filhos”.
Todas essas histórias servem como inspiração para as novas “Crias do Curro” e isso também reforça o comprometimento do Governo do Pará, que por meio da Fundação Cultural do Pará em promover e democratizar o acesso à cultura, lazer e educação para toda a população paraense.

Texto de Maurício Carvalho, com supervisão de Aycha Nunes