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A Utopia do Comum

Finok


Raphael Sagarra forma narrativas sobre o Brasil. Escuta as histórias, lendas e oralidades que permeiam os saberes e fazeres. Entre
referências de paisagens, objetos e propagandas encontrados pelo caminho, constrói um imaginário outro, a partir do que viveu. Em tempos em que as definições do país estão em disputa, Sagarra nos invoca ao mais cotidiano e, por isso mesmo, ao mais
bonito que temos. Enquanto a arte contemporânea se volta para o objeto exclusivo, o artista mira naquilo que é comum e instiga imagéticas nas quais nos reconhecemos e com as quais nos conectamos.

O artista mistura, mescla e embaralha referências de partes distintas do Brasil, ou desses Brasis, mostrando tanto sua pluralidade quanto sua singularidade. Joga com referências tipicamente brasileiras: paisagens, costumes, religiosidades. Cria quando o público se torna íntimo, onde as ruas são domesticadas em suas calçadas e mercearias. A paleta de cores e os rostos repetidos nos lembram, paradoxalmente, uma identidade coletiva vista por quem abre os olhos e observa por onde passa e passeia
pelos interiores. Sagarra percorre e contempla essas pequenas cidades e vilarejos que, apesar de menos retratados, formam majoritariamente nosso país.

Os rostos enfileirados, tanto quanto os empilhados na tela “Operários”, de Tarsila do Amaral, nos levam ao modernismo tropical,
em que, acrescentados os coqueiros, cores e texturas, nos aproximam das pessoas e lugares pelos quais o artista perpassou.
Numa fé que nos conduz a uma procissão, numa crença que nos carrega às encantarias. Sagarra nos lembra como esse Brasil está presente em nossos imaginários. Fugindo dos estereótipos de um suposto “Brasil profundo”, o artista traz para a superfície as pequenas coisas que constroem o que somos.

Erguendo bustos e pintando desconhecidos, anônimos, sem rosto e sem identidade, cria figuras para que todos se enxerguem
um pouco nessas presenças, tanto reais quanto míticas, homenageadas sobre o pedestal e a tela. Repensa os monumentos que queremos exaltar e admirar para contar nossas histórias. A ideia de nação, tão disputada e tão frágil, utilizada repetidamente por aqueles que se dizem donos do país, aparece aqui como massa popular, com uma estética própria e consciente de si.
Raphael Sagarra desloca o heroico para o popular, em que o ordinário se torna grandioso. Ícones do tropicalismo encontram
ícones públicos e compartilhados, traçando a complexidade da imagética dita brasileira. O artista pinta a importância de disputar esses sentidos de Brasil, considerando o momento presente de constante ameaça em que vivemos. Mostra as promessas de um país. Propõe uma nova formação de memória e constrói um Brasil não enquanto território, mas enquanto Brasis de ideias e sonhos, possíveis e utópicos.


Cristina Viviani


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