Do que reside na passagem
Carla Duncan e Chico Ribeiro
O encontro entre Carla Duncan e Chico Ribeiro marca uma nova inflexão contemporânea
na arte paraense, retomando a pintura como campo de reflexão sobre a cidade. A exposição Do que reside na passagem, com curadoria de Cristina Viviani, propõe pensar os espaços de ocupação dos corpos e o direito de agir e intervir em territórios públicos e privados, lançando novas indagações sobre o habitar.
Em tempos de COP 30, quando Belém volta-se, mais uma vez, aos olhares de quem vem
de fora em um gesto recorrente atravessado pela colonialidade, Duncan e Ribeiro questionam: a quem serve a cidade?
O periférico, presente nas produções de ambos não apenas em termos geográficos, mas sobretudo sociais evidencia como a violência inscrita em estruturas aparentemente estáticas, como vias e edificações, oprime aqueles que vivem à margem das dinâmicas hegemônicas de poder. Plantar na cidade, pintar nos espaços públicos: gestos que se configuram como desobediências ao urbano normativo, ao dito “civilizado”, ao projeto colonial ainda em curso.
As “corpografias urbanas”, conceito formulado por Paola Berenstein Jacques (2008),
manifestam-se nas pinturas dos artistas ao inscrever os corpos que vivenciam a cidade
como superfícies marcadas por suas tensões. A cidade torna-se contexto e agente,
disputando sentidos com os sujeitos que atravessam as telas. Nos retratos de Duncan e nas cenas construídas por Ribeiro frequentemente conectadas a práticas tradicionais e aos territórios periféricos da Grande Belém o urbano é simultaneamente cenário e força ativa, moldando e sendo moldado por aqueles que o habitam.
Entre feiras e praças do centro de Belém, Duncan revela a beleza do ordinário. Sua pintura evidencia sujeitos que ocupam espaços paradoxalmente associados tanto aos cartões-postais quanto à marginalização. Ribeiro, por sua vez, amplia o conceito de corpo ao retratar não apenas figuras humanas, mas também corpos d’água e corpos vegetais que disputam território com o asfalto. Ambos tensionam a ideia de que o meio urbano se resume a muros e fluxos, ressaltando as presenças que resistem e reconfiguram a paisagem. Ao elegerem a pintura suporte historicamente associado ao cânone e ao elitismo como linguagem central, Duncan e Ribeiro operam uma subversão. Utilizam a tela não para exaltar figuras políticas, paisagens idealizadas ou naturezas-mortas, mas para afirmar narrativas insurgentes. A partir de suas experiências, evocam reivindicações que
atravessam a história amazônica desde a invasão colonial até o presente, abrindo
possibilidades de imaginar a cidade para além das imposições do chamado “progresso”
moderno.
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