1 2 3 4

Trans Amazônica

Rafa Moreira


A técnica, termo tão fundante do que se entende como arte no Ocidente, longe de ser um saber estabilizado ou um domínio que antecede a experiência, emerge nas mãos de Rafaela Moreira como algo que se encontra no percurso e se transforma junto com ele. Em Trans Amazônica, a técnica não é um fim, mas um campo de disputa e um território atravessado por tentativas, apropriações e reinvenções. Assim, pintura, fotografia e performance surgem como meios porosos, continuamente reconfigurados a partir das urgências do corpo, da memória e do território.
A apropriação da técnica, nesse contexto, não opera como citação nem como gesto de neutralidade formal. Ela é fricção. Ao deslocar a pintura — gênero clássico da história da arte —, materiais associados à tradição colonial — como o azulejo — e dispositivos burocráticos de identificação — como a fotografia 3x4 —, a artista produz uma técnica que se constrói no embate entre o herdado e o que precisa ser quebrado, entre a norma e a possibilidade de reescritura.
O próprio título da exposição funciona como chave metodológica. Trans Amazônica evoca a rodovia que corta a floresta como promessa de integração, ao mesmo tempo em que questiona a cicatriz colonial reiterada por um desejo de modernidade que se materializa de forma ampla durante o período da ditadura militar. Ao se apropriar desse nome, a artista aposta também em um jogo semântico, no qual Trans Amazônica se torna um neologismo para pensar percursos subjetivos e artísticos que se constroem em trânsito, conectando corpos e territórios nortistas e nordestinos à história da arte.

Eduardo Bruno e Waldiro Castro
Curadoria e Expografia


galeria: