DISPOSITIVOS DISSONANTES
reúne uma série de operações de natureza artistica que nos
convoca a uma retomada do olhar sobre a cidade e sua história. É dificil dizer a respeito de uma cidade além do que seus próprios habitantes repetem, O que já se disse recobre seus contornos e nuances. Porém, a partir de uma autorresidência artistica na cidade de cerca de 20 dias, os artistas Élcio Miazaki e Jan M.O. rompem a curiosidade do recém-chegado, atraido por tudo aquilo que nunca viu para, a partir de diferentes estratégias de prospecção, desvelar o que ali escapa, o que a lógica ditada pelo fluxo cotidiano suprime apaga. Nas cidades, os olhos não veem coisas. mas figuras de coisas que dizem outras coisas.
A partir de uma rigorosa pesquisa que envolve coleta de dados em bibliotecas, arquivos públicos, conversas com moradores, os artistas desvelam, a partir de distintos pontos de vista.
o que a cidade guarda sob esse inválucro de simbolos, o que ela contém e o que esconde.
Em ações performativas dirigidas à registros fotográficos os artistas instauram uma
suspensão do fluxo cotidiano para revelar um outro sentido das coisas e, pelo gesto poético.
promover ao olhar condicionado uma chance de epifania e revelação. Jan M.O. lança mão de uma faixa contendo a que é considerada a mais extensa palavra da lingua portuguesa
(oneumoultramicroscopicossilicovulcanoconioti
co) para, ao estendê-la em prédios culturais da cidade, romper o condicionamento do olhar pelo tempo dedicado à leitura e lançar luzes sobre os desafios que estes espacos enfrentam para sobreviver frente a tantos cerceamentos impostos a cultura em nosso pais Gesto que evidencia as relações da imagem com a palavra e a opacidade e retração da capacidade de perceber o sentido das coisas que nos cercam. Numa outra
perspectiva, Elcio Miazaki se debruça
sobre o periodo da ditadura militar e a relação de determinados prédios ou espaços públicos
locais com fatos relativos ao momento histórico. Pautado pela pesquisa de documentos e conversas com estudiosos do tema, o artista revisita acontecimentos da história recente da cidade e. através de uma relação entre performances fotográficas, desenhos e objetos, desvela uma cidade plena de referências praticamente desconhecidas por parte da população local, A valorização da memória como resistência se coloca em oposição ao aniquilamento das informações promovida subliminarmente no mundo contemporâneo pela produção excessiva de outros tantos conteúdos fugazes e provisórios.
Nesse sentido, o processo do artista transcende a dimensão do acontecimento para. meramorfoseando-o pelo gesto criador, revelar linhas de força de nossa relação fundamental com o mundo.
A exposição Dispositivos Dissonantes reúne tambem objetos interativos e manipuláveis pelo público produzidos Jan M.O. onde a palavra è subvertida em sua ordem para revelar outros possiveis sentidos. Jan nos convoca a pensar através de seus mecanismos que toda a palavra não é senão seu sulco, não indica senão seus pontos de passagem.
Pelos trabalhos aqui reunidos somos instados a pensar no passado a partir de uma indissociavel relação dialética com o presente e o futuro e assim, quem sabe, entender como pade a memória interrogar a esperança. Do mesmo modo, Elcio e Jan nos ajudam a compreender a palavra enquanto artificio pelo qual o emissor confronta sentidos dissonantes e pela adesão à suas poéticas. nos aliamos aos seus sistemas a ponto de, doravante os considerarmos como nosso
ALEXANDRE SEQUEIRA