SABER DE COR: EXISTÊNCIAS OUTRAS PARA ALÉM DO AZUL E ROSA
JOÃO PAULO BALISCEI
A proposição de “Saber de Cor: Existências outras para além do azul e rosa” guarda relações com os significados que, visual e cromaticamente, são atribuídos às identidades de gênero e às sexualidades. Ela busca, a partir da exposição de 45 obras produzidas pelo artista maringaense João Paulo Baliscei, promover reflexões e problematizações acerca de como, no âmbito social, tem-se recorrido às cores para ampliar ou reduzir as maneiras como os sujeitos, desde antes do nascimento, relacionam-se com expectativas afetas às masculinidades e às feminilidades.
A expressão que dá título à exposição — “Saber de Cor” — faz referência, primeiro, aos conhecimentos que se tem sobre as cores. Alude, portanto, àquilo que se sabe acerca desse elemento formal das Artes Visuais. Ao mesmo tempo, quando se altera a ênfase dada à letra “o” da palavra “Cor”, o título pode remeter a uma expressão recorrente no senso comum: saber de cor. Essa expressão costuma ser usada para se referir àquilo que é memorizado prontamente e cujo acesso não requer consulta ou estudo. De tanto que se é familiar, já se é sabido de cor. Decorado. A leitura ambígua do título, então, é um convite para a percepção e questionamento dos saberes decorados e automáticos que têm sido compartilhados em relação ao uso generificado das cores, como quando, por exemplo, reservam-se umas delas quase que exclusivamente às meninas e outras, aos meninos. E, nesse caso, sabe-se de cor a quais cores se referem.
As diretrizes elaboradas pelo bojo de uma sociedade que valoriza a heterossexualidade como norma e repudia, censura e corrige qualquer expressão de gênero que sugira outras sexualidades vêm adotando, desde o início do século XX, o azul e o rosa como marcadores de masculinidades e feminilidades, respectivamente. Equivocadamente, pensa-se que a adoção e repetição dessas cores, desde a infância, farão do menino masculino e da menina, feminina — e de ambos, heterossexuais.
Os papéis que as cores desempenham na generificação dos corpos têm sido evocados, inclusive, em pronunciamentos de representantes políticos. Em janeiro de 2019, por exemplo, a então ministra da Mulher, Família e dos Direitos Humanos, informou o início de “uma nova era no Brasil”, anunciando que, nela, meninos vestiriam azul e meninas, rosa. Semelhantemente, em outubro de 2020, o presidente do Brasil — quando lhe fora oferecido um guaraná cor-de-rosa — em tom jocoso, associou a bebida à homossexualidade, dizendo: “boiolagem isso aí”. Cerca de um ano antes, em uma fala pública, em tom de piada, ele também se referiu ao então presidente do Senado, proferindo: “Apesar da gravata cor-de-rosa, é meu amigo”. No ano seguinte, repetiu essa mesma frase, porém em inglês, zombando da cor rosada da gravata do presidente dos Estados Unidos à época. Ainda que esses e outros pronunciamentos por vezes provoquem riso e possam ser lidos como “inofensivos” por quem se beneficia de seus resultados, posicionam à margem toda a comunidade de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais, Queer, Intersexuais, Assexuais e outras identidades.
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