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Outros Viajantes

Débora Mazloum


Um viajante está sempre à procura do “outro”, mesmo que seja ele mesmo. Ao dar o nome de Outros viajantes para esta exposição, Débora Mazloum construiu uma espécie de “avesso do avesso do avesso do avesso” do artista-viajante, cobrindo com o manto da diferença o rótulo de estranhamento que artistas e pesquisadores, predominantemente europeus, buscaram ao realizarem diversas viagens às terras abaixo da linha do Equador para classificar — em última instância, subalternizar — tudo o que vivia de modos diferentes dos seus. “Outros” porque não “aqueles”, os das expedições mais conhecidas, como a de Carl Friedrich von Martius (1794–1868) e Johann Baptist von Spix (1781–1826). Os dois vieram à Amazônia no século XIX, e foram capazes de arrancar oito crianças indígenas de nosso território, ainda em fase de delimitação de fronteiras, e sujeitá-las a uma travessia transatlântica. Seis curumins morreram no caminho; dois, uma menina da nação Miranha e um menino da nação Juri, chegaram a conviver por meses na corte de Munique. Lá, destituídos de seus nomes e de sua identidade, foram os “outros” — corpos objetificados, existências confinadas. Mas não tardou o momento em que sucumbiram aos vírus e as baixas temperaturas do inverno bávaro. No extraordinário romance O som do rugido da onça, Micheliny Verunschk imagina a história apagada dessas duas crianças, dando voz e pensamento à menina indígena. O que se sabe dela é que chegou por volta de 12 anos de idade em um palácio da Baviera, foi retratada bastante desconfortável trajando vestidos de renda e laços de fita e foi chamada de Isabella Miranha. Na ficção de Verunschk, a autora a imagina conversando com Isar, o principal rio de Munique, que assume uma identidade feminina e consegue contar todas as histórias daquela região, além de saber um pouco da vida daquela criança através do contato com outras águas. Em outros trechos, a menina lembra da forma como foi negociada e arrastada para além-mar, e ainda o horror de ver plantas e bichos serem “desencantados” no papel, transformados em desenho. Não é difícil reconhecer o quanto deve ter sido espantoso, para povos que acreditavam ser possível dialogar com bichos e plantas, e entendiam a vida como um fluxo integrado de movimento contínuo, ver esses mesmos bichos e plantas paralisados pela representação. No “desencantamento” como desenhos, eles estariam desprovidos de sua anima. No caso das expedições setecentistas e oitocentistas por aqui, estes não eram desenhos quaisquer. O que orientava as representações da fauna, da flora e dos tipos humanos catalogados pelas expedições era o Systema Naturae (1735) desenvolvido pelo médico e zoólogo sueco Carolus Linnaeus, assim como a ideia de “degeneração” das espécies contida na História natural, de George-Louis Buffon, publicada a partir de 1749. A exposição construída por Débora Mazloum para a Galeria Ruy Meira, dentro do Prêmio Branco de Melo, apresenta um panorama de trabalhos realizados entre 2014 e 2022, além de uma obra inédita, especialmente concebida para Belém: Viagens Filosóficas. A instalação começou a ser pensada em uma residência artística no Lab Verde, em Manaus e em visitas ao Jardim Botânico de Coimbra. Com ela, Débora faz uma investigação a respeito da expedição do naturalista luso-brasileiro Alexandre Rodrigues Ferreira (1756–1815), que percorreu as Capitanias do Grão Pará, Rio Negro, Cuiabá e Mato Grosso ao longo de nove anos, e percorreu cerca de 39 mil quilômetros catalogando e descrevendo tanto a flora e a fauna quando os habitantes das regiões visitadas. Para criar o site specific, Débora criou um jardim (ou laboratório) de aguapés, planta muito importante no ecossistema amazônico. As “mudas”, realizadas em plástico e esculpidas com o auxílio da impressão 3D, receberam tons arroxeados e avermelhados, muito distantes de seus verdes naturais. Brotando de gavetas, prateleiras e móveis garimpados nos acervos de antiquários de Belém e dos equipamentos culturais do Governo do Estado do Pará, as esculturas são misturadas a recipientes de vidro, pérolas artificiais, seixos para aquário e plantas cenográficas. Assim, deslocadas da presunção de verossimilhança, são encharcadas de alegoria e artificialidade, sugando do período histórico que atravessa o trabalho a imensa carga de violência que ele contém, mas, de certa maneira, respondendo a ele com uma ironia insubordinada e burlesca, carnavalizada. Viagens Filosóficas ilumina toda a jornada do projeto, e seu desejo de 3 tornar “outras” as interpretações sobre esses processos históricos.


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