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RESPOSTA AO TEMPO

Gilvan Tavares


Em exposição individual, Gilvan Tavares mostra como abstração e sensibilidade podem dar voz à floresta


Artista visual, pesquisador e ativista ambiental transforma memória, natureza e experimentação estética em uma obra que há mais de quatro décadas reafirma a Amazônia como território de criação, consciência e permanência.


Por Paulo Silber

Muitos artistas pintam paisagens, pelo mundo afora. Gilvan Tavares prefere escutar aquilo que a paisagem tenta dizer antes de desaparecer. Sua pintura não descreve a floresta, os rios ou os ninhos. Ela traduz suas pulsações. Como um cartógrafo da memória natural, Gilvan constrói um universo onde cores, gestos e texturas transformam a tela em território vivo, ao mesmo tempo exuberante e ameaçado. Nascido em 9 de abril de 1965, Gilvan traz consigo uma relação afetiva com a natureza que antecede sua própria trajetória artística. Assumidamente artista e ativista ambiental e social, construiu desde a infância um vínculo profundo com as paisagens amazônicas. Em mais de quatro décadas dedicadas às artes visuais, Gilvan fez da abstração uma linguagem capaz de aproximar emoção e consciência. Seu trabalho nunca se limita ao exercício formal. Cada camada de tinta parece guardar o vestígio de um tempo em transformação, como se a matéria da pintura absorvesse tanto a beleza da Amazônia quanto as cicatrizes deixadas pelo desmatamento, pelas queimadas e pela perda silenciosa da fauna e da flora. Artista visual criativo e pesquisador de técnicas visuais, desenvolve pinturas sobre telas, painéis, murais e aquarelas, sekmpre investigando novas possibilidades expressivas. Sua produção também se destaca pela pesquisa de alternativas voltadas à arte sustentável, reafirmando o compromisso entre criação artística e responsabilidade ambiental. Inscrito na Enciclopédia Itaú Cultural, Gilvan também compartilha sua experiência ministrando cursos e oficinas em Belém e em diversos municípios paraenses, ampliando o alcance de sua pesquisa junto a novos artistas e comunidades. Essa relação entre criação e ativismo ambiental ganha novo fôlego em "Resposta ao Tempo", exposição individual que será inaugurada no próximo dia 6 de agosto, na Galeria Theodoro Braga, no Centur, em Belém. A mostra celebra seus 36 anos de atuação artística na capital paraense e reúne pinturas acrílicas espatuladas sobre tela e papel Paraná, além de desenhos produzidos ao longo de mais de 40 anos de pesquisa. É um retorno ao próprio percurso, mas sem nostalgia. Revisitar o passado, para Gilvan, significa descobrir novas possibilidades poéticas. Se as pinturas explodem em cromatismos intensos, os desenhos conduzem o olhar para outra dimensão. Formas orgânicas evocam ninhos, casulos e invólucros, mas também revelam a fragilidade dos ciclos naturais interrompidos pela ação humana. A abstração, aqui, não afasta o espectador da realidade. Ao contrário, aproxima-o por meio da sensibilidade. Há algo de lírico em sua produção que recorda a capacidade da natureza de se reinventar depois da tempestade. As sobreposições de cores e planos fazem coexistir o macro e o microscópico, como se galáxias e sementes compartilhassem a mesma origem. A pintura deixa de ser superfície para tornar-se experiência, convidando quem observa a percorrer caminhos onde contemplação e inquietação caminham lado a lado.


Sua trajetória artística é construída de maneira consistente desde 1990, participando de exposições individuais e coletivas, salões de arte e projetos de relevância nacional. Entre os principais marcos estão as seleções para o Salão Arte Pará, em 1996, 1998, 2000, 2011 e 2012; as Medalhas de Ouro conquistadas no I e II Salões de Arte da Aeronáutica de Belém, em 1997 e 1998; a participação no IV Salão de Arte da Cidade de Itajaí (SC), em 1997; no I Salão Plástica Amazônica, em Manaus, em 1998; o Prêmio Bolsa de Criação Artística do Instituto de Artes do Pará, em 2002; o Prêmio Expressões Artísticas do Programa Seiva, da Fundação Cultural do Pará, em 2015; a seleção para o projeto CowParade; e, mais recentemente, a participação na exposição coletiva Belém Pará 2026. Contemplado pelo edital da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura (PNAB 2025), o projeto também reafirma a maturidade de uma carreira construída sobre pesquisa permanente e compromisso com a cultura amazônica. Além da mostra, a programação inclui oficinas, visitas guiadas, rodas de conversa e distribuição gratuita de catálogo, ampliando o diálogo entre obra, artista e público.

Há um parentesco entre sua pintura e a liberdade gestual do expressionismo abstrato. Ainda assim, Gilvan permanece profundamente amazônico. Sua obra nasce menos das referências museológicas do que da experiência cotidiana de quem conhece a luz, a umidade, os ciclos e as contradições da floresta. Muitas vezes, não há paisagens reconhecíveis, mas pulsações. Noutras, não há figuras definidas, e sim uma Amazônia reinventada pela cor, pelo gesto e pela matéria.

Gilvan compreendeu que o tempo não corrói apenas as coisas. Ele também as transforma. Sua pintura nasce exatamente desse intervalo entre permanência e mudança, onde a beleza resiste sem ignorar as feridas. Em uma época que insiste em contabilizar perdas, sua obra recorda que a arte ainda é capaz de devolver à natureza aquilo que ela nunca deixou de possuir: voz. E, sobretudo, memória.


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