HIPNAGOGIA: NARRATIVAS ONÍRICAS
Exposição do Acervo GTB
Em fins do séc. XVIII, Goya cria uma série de gravuras retratando de forma satírica a Espanha supersticiosa e arcaica da época, entre as quais temos a poderosa “El sueño de la razón produce monstruos”, uma investida pró- Iluminismo na qual uma figura adormecida (interpretada como o próprio artista) é cercada por animais noturnos (corujas, morcegos – que representam a loucura e a ignorância do obscurantismo), sugerindo, numa leitura rápida, que a personagem estaria sofrendo num pesadelo, ocasionado pela ausência da razão. Muitos observadores acreditam que Goya quis retratar-se adormecido em sua escrivaninha, com a razão embotada pelo sono. Esse estado semi-consciente entre a vigília e o sono, onde podem ocorrer alucinações visuais e auditivas, visões fantasmáticas, espasmos musculares e insights criativos, é chamado de Hipnagogia, um fenômeno neurológico natural que acontece com qualquer pessoa, mas que nos artistas pode ter efeitos específicos. Em estado hipnagógico podem emergir imagens, ideias inovadoras, formas irreconhecíveis, novas linguagens. E tudo isso, nem sempre da forma mais agradável, bela ou tranqüila.
Em “Hipnagogia – narrativas oníricas”, pretendemos investigar no acervo histórico da Galeria Theodoro Braga as obras que melhor ilustram esses interstícios, inferindo que, mais do que traduções intersemióticas de sonhos, devaneios ou delírios dos artistas, as obras são, ao mesmo tempo, portais e guardiãs de portais sígnicos, podendo, em acordo (ou
choque) com o olhar que a interpreta/interpela, conduzir a sensações, visões, reminiscências, sonhos e pesadelos. Deste modo, conduzimos sua expografia ressignificando a força de obras como os caminhos de mata de Jean Yves Gallard em diálogo com as pinturas de Francco e a instalação sensorial do Coletivo Vênus, onde as dimensões misteriosas do sonho tomam formas reconhecíveis, instigando descobertas e desvendamentos. O choque político da obra de Lucia Gomes retoma o rumo do pesadelo, que reencontramos nas criações de Bichara Gaby, nos fazendo lembrar que o grotesco, aquilo que pode ferir o olhar também ressoa no espírito de qualquer tempo.
Renato Torres
Técnico em Gestão Cultural – GTB/GBN
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