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Projeto Atrito: arte rito grito

Publicado: Sexta, 28 de Março de 2008, 10h39 | Última atualização em Quinta, 19 de Maio de 2016, 15h08 | Acessos: 896

Durante o ano de 2008, estabeleceu-se na Galeria Theodoro Braga o projeto Atrito: arte rito grito, um espaço de inter-relações entre artistas de diversas linguagens, onde a criação, como base do fenômeno artístico, é colocada em foco, tendo como premissas a espontaneidade do ato criador, e o improviso – visto aqui como um trampolim estético, baseado no impulso irresistível de comunicar imanente aos artistas. A arte contemporânea se caracteriza, entre outras coisas, pela quebra de limites entre as linguagens, amalgamando-as em novos experimentos. Assim sendo, através deste projeto, quisemos reafirmar a função da galeria no mapeamento e divulgação da produção dos artistas, bem como sua função educativa, potencializando seu espaço expositivo, transversalizando-o entre os conceitos de galeria, atelier, palco e fórum de debates estéticos. O projeto tem um caráter eventual, acontecendo dentro de um espaço de aproximadamente duas horas, divididas entre processo criativo inter-relacional dos artistas convidados (primeira hora, aproximadamente), e um espaço de debate sobre o processo criativo (segunda hora, iniciada imediatamente após o fim do processo), com a participação de professores/artistas convidados, que funcionam como mediadores desse debate, além do público comum.

O Caminho das Pedras

Na Crítica Genética, ciência originária da investigação de vestígios do processo criativo no campo da Literatura, já plenamente desdobrada para qualquer campo da ciência e da arte, encontramos as ferramentas arqueológicas necessárias à observação de tais processos. Segundo Cecília Almeida Salles, é através da Crítica Genética que podemos desmontar um processo para em seguida pô-lo de volta em ação, inferindo seu caráter de devir, isto é, permitindo conhecer outras dimensões que na obra acabada não nos é dado perceber, e que freqüentemente determinam seu maior ou menor grau de potência significante.

É no exame cuidadoso do ato criador que podemos perceber as diversas relações que se estabelecem e continuamente se reestruturam, compondo aquilo que Salles chama de movimento da gênese, a qualidade eminentemente móvel da existência, que determina os inter-fluxos de energia entre todas as coisas da natureza. Nesse movimento, o artista termina por conhecer melhor a si próprio: “O artista se conhece diante de um espelho construído por ele mesmo. Rasurar a possível concretização de seu grande projeto é, assim, rasurar a si mesmo” (1998, p.131). Nesse cardo de escolhas que se configura como um projeto poético, errar – isto é, experimentar caminhos – é uma prerrogativa irrevogável para que se construa a obra-espelho, o processo-espelho.

Uma Linguagem em Formação

A importância dessas observações para o professor de arte, concluímos, é altamente enriquecedora, na medida em que dará outras perspectivas da natureza dos processos criativos de seus alunos, conferindo a seus esforços méritos até então invisíveis aos que se baseiam em cânones do belo e da chamada perfeição formal. Para além de respeitar as buscas expressivas dos alunos, os professores poderão referendá-las com a legitimidade da pesquisa, outorgando-lhes, na medida de sua verdade temporária, o caráter de resíduos de uma linguagem em formação.

Desta forma, o projeto Atrito pode funcionar como esquema indutor de uma dinâmica educacional em arte, já descrita na proposta triangular de Ana Mae Barbosa, onde é possível ver, fazer e contextualizar arte, considerando suas transformações ao longo da história, e sua mobilidade e velocidade no mundo contemporâneo. Há sempre um caráter de movimento na arte, quer seja no ato da criação, quer seja na própria obra, apresentada como resultante de um processo criativo, que parece pretender, de alguma forma, manter vivos os feixes energéticos transientes entre o artista e a obra, entre a obra e o público, entre o artista e o público, articulando nesses afluentes a hidrografia incessante de significantes e significados, dispostos ao sabor de um jogo profundamente estimulante.

A Galeria Theodoro Braga, através do projeto Atrito, se pretende um espaço para este jogo, onde será possível um diálogo aprofundado acerca dos temas comuns entre a galeria e a escola no campo da alfabetização estética, tanto do público interessado em arte, quanto dos alunos e também dos professores de arte, no que diz respeito à capacitação técnica e instrumentação pedagógica. O projeto Atrito, enquanto modelo, pode e deve ser utilizado como ferramenta de pesquisa em arte, com fins pedagógicos e de sensibilização, aproximando assim professores e alunos do fascinante universo criativo dos artistas que se esconde por trás de suas obras.

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