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Atrito I (experimental) - 28 de março de 2008

Publicado: Sexta, 28 de Março de 2008, 15h47 | Última atualização em Quinta, 19 de Maio de 2016, 15h58 | Acessos: 948

por Renato Torres, Técnico em Gestão Cultural GTB/FCP, músico e poeta.

 

Em março de 2008, numa tarde em que a galeria estava fechada, sem exposição, reunimos os artistas convidados ao tubo de ensaio do que se tornaria o projeto Atrito: arte rito grito, Ana Flor (performer), Cássio Tavernard (artista gráfico), João Cirilo (artista plástico), além da equipe da galeria, e alguns colegas e amigos que se fizeram presentes. O clima era de uma leve tensão; nenhum de nós sabia ao certo no que aquilo poderia resultar. Deixamos o tempo e a imaginação correrem ao fluxo do momento, e assim passamos as aproximadamente duas horas do experimento. Como ainda não havíamos formatado o projeto com todo o suporte e estrutura que ele passou a ter à partir de sua segunda edição, ao término nos sentamos e conversamos descontraidamente sobre a experiência, sem esconder um certo alívio por termos atravessado essa simbólica "escuridão" do processo criativo - e ainda mais, um processo criativo compartilhado, mutuamente afetado entre os participantes - com o resultado de nos sentirmos estranhamente diferentes depois de tudo. O risco e o susto desse desnudamento, do strip-tease anímico e semiótico de nossos processos criativos "revelados" dava seu primeiro passo.

Convidei os artistas participantes a darem depoimentos sobre a experiência, no que fui atendido por dois deles (não à toa, dois dos que mais interagiram, interferiram-se mutuamente). Segue os depoimentos de ambos:

"A junção do contato visual, audível e corporal dá origem a um certo atrito de sensações. Deixar que as vozes e os sons venham, colocá-los em imagens e em movimentos; um ato de risco o de fazer sem pensar, apenas fazer quando surge. Falar da onda, mas dentro dela, não quando se chega à areia. Começar com um propósito e terminar com uma surpresa. Cada artista se surpreendeu com seu resultado, a unidade do que se foi produzido apresenta-se de maneira inusitada, mas está lá. Seja em forma de cores ou de estilos."     

Ana Flor, performer.

"Uma Segunda-feira,

Um dia trinta e um de um mês de um chuvoso mês de março de dois mil e oito.

Dia de folga. Mas a saída mesmo assim para participar de um projeto na Galeria Theodoro Braga. O Atrito. Um dia de folga perdido. Pensei, mas vá lá, uma causa importante. Queria permanecer em casa. Mas. O trânsito. O engarrafamento de uma hora de São Brás até a Doca, por conta da chuva. O desvio do ônibus e eu tentava estudar inglês e duas mulheres desbocadas na parte da frente do ônibus me faziam desejar que a viagem se tornasse mais curta. Liguei para o Ilton antes de descer do ônibus, na Doca, dizendo a ele que não participaria mais, pela hora. Ele disse que não. Que era pra eu aparecer e participar, porque não havia chegado ninguém ainda. Eram cinco da tarde quase, para uma atividade prevista para começar às três. A galeria. A cidade em estado de caos. De fato eu chegara 'cedo'. E a espera pelas outras pessoas. Apareceram algumas, e eu ganhei um chocolate da Lu. O começo dos trabalhos. Tinha de criar um desenho em coisa de uma hora ou mais, tendo outras pessoas produzindo ao meu lado: Cássio Tavernard (em situação similar a minha), Ana Flor (como representante de dança ou de linguagem corporal) e Renato Torres (como músico). Eu tinha um superfície no chão feita em papel 60 kg que me serviria de base. Diversas folhas de papel coladas umas às outras, assim como o Tavernard, com a diferença de que a minhas ficavam pelo chão e as dele coladas numa folha de compensado, encostada a uma das paredes da galeria. O Desenho. Pintura quase. A moça dançava ou se mexia às ondas da música ou dos esboços de sons que saiam das mãos e da boca e do violão e do microfone de Renato. A moça Flor vestia-se de preto e vermelho. Vermelho e preto. Exu. O cão. E o transe. Pensei em coisas. Em pecado. Em sangue. Em violência. Em sexo. Em bruxaria. E como numa sessão de Religião Arte nenhuma, senti o corpo e a consciência serem tomados pelo desligar-se de todo de tudo. E as pessoas que assistiam ao que seria uma performance ou ao que seria um ato de manufatura em embrião de coisa de arte foram sumindo uma a uma a partir de um determinado tempo. E já não se ouvia mais som, nem se via mais a bailarina a moça a Flor, nem se via a pintura do artista. E vermelhos das tintas eram sangue e os pretos das tintas eram carvão e noite. Os movimentos. O preencher a superfície no todo. Eu desenhava uma moça em vermelho Flor, que não saiu como eu quis e eu senti vontade de rasgar tudo, mas eles não entenderiam. Elas não entenderiam, as pessoas que retornaram ao lugar (elas não haviam saído dali, pelo menos, não todas quando tudo acabou) e eu percebi a música e o som angústia atonal de Renato o violão quando a música parou. E a percepção de que não estávamos sós e do que havia feito. Eu deveria rasgar aquilo tudo. Mas eles não entenderiam. Eu não entenderia porquê rasgar. E não se teve um momento para eu dizer que me deu vontade de rasgar tudo. Depois. Agradeci a todos pelo convite e pedi desculpas por qualquer coisa, como sempre faço."

João Cirilo, artista plástico.

Para ver vídeos do Atrito I, clique aqui.

 

 

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