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Atrito II - 13 de junho de 2008

Publicado: Sexta, 13 de Junho de 2008, 12h43 | Última atualização em Segunda, 23 de Maio de 2016, 14h20 | Acessos: 1188

por Renato Torres, Técnico em Gestão Cultural GTB/FCP, músico e poeta.

 

Passados pouco mais de dois meses de nossa primeira experiência, estruturamos a segunda edição do projeto Atrito: arte rito grito com a preocupação voltada aos mínimos detalhes. Primeiro, procuramos convidar artistas de linguagens diversas, tirando o protagonismo das artes plásticas evidente na primeira edição; segundo, convidamos dois debatedores, cuja função seria a de observar o processo inter-relacional dos artistas, e conduzir o diálogo e as reflexões na segunda parte desse processo; e em terceiro lugar, abrimos a galeria para que o público pudesse participar ativamente no processo, nos diálogos, nesse pensamento coletivo.

Para esta segunda edição convidamos Daiane Gasparetto (bailarina, atriz e poeta), Fábio Cavalcante (músico e pesquisador), Paulo Vieira (poeta) e Ricardo Macêdo (artista visual). Para conduzir os debates, convidamos Marisa Mokarzel (Casa das Onze Janelas) e Luizan Pinheiro (Artes Visuais/UFPa.). Colhemos depoimentos dos participantes, e ao final, transcrevemos o debate de ideias e sensações do que ocorreu nessa tarde.

Retra     to

         tri

"Retratados no espaço estavam: uns corpos, alguns traços, meias palavras, vários sons. Uma suspensão criativa materializada no momento atemporal do caos e da interferência das linguagens. Convidados eles foram para atritar os verbos 'perceber' e 'oferecer', fazendo brotar do acaso o fogo comungado na ressonância do gesto na mão, da cor na parede, do verso no reverso e do ruído no ar. O combustível da comunicação espalhada na câmara de luzes projetadas sobre as paredes, que receberiam a imprecisão da arte em processo. E o que é o processo? A construção edificante da forma disforme? O produto fabricado diante da demanda dos sentidos? Todos os pedidos atentos do movimento em frente ao bem feitor dos riscos coloridos e rasgados em papéis de poemas. Um corte de folha embalando o sono acordado da mulher vivida na história do escritor. Poetas vendidos, gente nascida ao lado de contratempos e erros, 4x4. Isso é processo.

Os elementos do artista, que está entregue à ação, é o ambiente tal como ele é, carregado de significações e sensações que ganham corpo na presença do organismo atuante. A exposição de um processo criativo traz consigo a revelação de que o pensamento transfigurado no objeto, na imagem nasce ao mesmo tempo em que se oferece ao outro, ao espectador, ao criador. Dessa maneira, há um produto em cada momento da criação, mas que por sofrer as suas devidas alterações (e percepções) em um outro átimo já é outro, e outro, e outro produto. Não há como pensar em criação sem refletir sobre a fluência do acaso, tal como acontece aos cientistas mais aptos aos avanços, que se deixam a mercê do improvável e não da mera refutação das hipóteses. Acredito que a arte não queira ser refutada. Grande trabalho seria daquele que se desse a esse ofício, dada a imensa possibilidade de semânticas. Inventar é deixar todo resultado fotografado na percepção para ser sentido como novo gosto no próximo instante de criar ação."

Daiane Gasparetto, bailarina, atriz e poeta.

ito

 

se vai vergastado e pouco sonoro

este torpor de palavras incluso

nas canções ainda em uso

atualmente, elaboro

uma outra afeita canção,

outra maleita, portanto,

e me lanço aos lábios do vulcão

para melhor te apreciar o canto

e me banhar entre o nada e o vazio

enquanto a lava rola ao mar maldoror,

com suas correntezas feito um rio

de fogo, ou uma perversão de amor

 

"a galeria já estava fechada. uma galera na porta, nenhum mar. e só mesmo um poeta poderia temer a palavra quatro. estava com medo sim. morri de medo já umas tantas vezes que ficaria até vergonhoso para mim lhes contar. ah, olha aqui! aqui do meu lado! esta menina de preto entrando e saindo da parede branca, ou é a luz que apaga e acende? olha! tá vendo? nem eu. é que tem das vezes que vejo e das vezes que não vejo. me dá medo. tudo bem, menina entrando e saindo da parede é só tinta semi-impressa, você sabe, aquela tinta que não está nem na parede, nem no balde, nem em lugar nenhum, fica num esconderijo da memória só esperando uma cena, não um cenário, uma cena! uma interpretação, melhor dizendo. este poema aí em cima por exemplo. uma tinta medrosa, ainda há pouco era semi-impressa, agora faz parte dos meus crimes assumidos. me remoço tanto se me ocorre um poema, mas só de ocorrer, que se tento escrevê-lo padeço debalde. ele foge igual música, daí tento outra e outra e outra vez me perco. mas é assim palavra, que nem gente. isso é fato: desde a primeira vez em que andei mal acompanhado, nunca mais estive só."

Paulo Vieira, poeta.

SOBRE O ATRITO

"Sempre imaginei que um grupo aproxima-se de um trabalho em comum a partir de um objetivo em comum, esta é a lógica que traduz a proximidade no seio da ordem e da razão. Mas, pensei também junto a isto que, se invertermos e pensarmos o avesso desta lógica substituindo o comum pelo incomum, chegaremos ao reino da alteridade e do encontro na pele da diferença, onde a desordem naturalmente revela-se em uma camada subcutânea e invisível aos olhos, pois invisível a razão, ao programa e a uma ordem linear das coisas, surge no imprevisto e na surpresa das situações.

O encontro com os três artistas (Daiane, Fábio e Paulo), no projeto intitulado 'Atrito' para mim, foi uma oportunidade de vivenciar uma situação que estava fora de minha zona de conforto, fora de minha racionalidade que programa e se esforça por ordenar e executar, pois não estando as coisas sob meu controle unicamente, mas dissolvida entre os outros três artistas, a situação que me foi posta permitiu-me a execução de um processo à partir de uma desordem, uma pequena abertura ou fissura na pele da razão, uma hora de passeio pelo chão invisível do desconhecido. Pois se nada havia sido calculado ou planejado, penso e sinto ter podido ali viver alguns momentos de emancipação da ordem que regula a aproximação entre pessoas, conceitos, ideais, referenciais, etc. O que pra mim é extremamente válido em um mundo que adoeceu pelo excesso de razão e pelo mínimo de emoção e afeto.

Por fim, posso também dizer que o trabalho integrado aos outros artistas não podia ter vindo em melhor hora, pois se aproxima de algumas pesquisas que venho realizando desde 2006 sobre produção da obra em grupo e aproximação de áreas de conhecimentos distintas. Sendo o interessante aqui é poder ter executado a coisa e não apenas escrever ou ler sobre ela. Adorei ter participado. Parabéns ao Renato Torres, ao Ilton Ribeiro e a Eliane Moura pela iniciativa junto à direção da Galeria Theodoro Braga."

Ricardo Macêdo, artista visual e designer gráfico.

O artista João Cirilo (que participou da primeira edição do projeto) esteve presente como público na segunda edição, e deu seu depoimento sobre a experiência:

Sobre minha participação como observador em meio a segunda edição do projeto Atrito da Galeria Theodoro Braga

"Uma Sexta-feira,

Um dia treze estranho de um quente mês de junho de dois mil e oito

A segunda versão do projeto Atrito ocorreu num dia calorento e estranho do mês de junho. O tempo tinha uma cara de que ia chover. Em Santarém, a notícia, hoje, de uma tromba d’água que ameaçou, ontem, passar por cima da cidade. O tempo estava estranho. O projeto da galeria estava rolando já, coisa de quatro da tarde e eu cheguei atrasado. A presença de Ricardo Macêdo, Paulo Vieira, e outros dois artistas (uma dançarina, de nome Daiane Gasparetto, eu acho, e um músico, que não me ocorre saber o nome agora), mais um encontro memorável que se deu entre esses artistas e o público, bem maior que o da primeira edição, que contava inclusive com a presença de dois estudiosos da arte, Luizan Pinheiro e Marisa Mokarzel. Grande evento com uma forte integração entre as várias linguagens ali representadas. Percebo melhoras no projeto, que deixou de acontecer no escuro da galeria para se tornar aberto e à vista de todos, com uma certa estrutura de segunda versão do projeto. O grupo de hoje, diferentemente do que estivera na primeira versão, permitiu-se a invasão da área do outro. O poeta escreveu e não recitou, o músico rasgou os escritos do poeta, o artista visual criou trabalhos junto com o poeta usando os restos dos escritos que estavam no chão, a dançarina trafegava entre todos e 'morreu morta' caída de cansaço ou de morte séria lixo sob um guarda-lixo. O dadaísmo e o niilismo ali presentes, na figura ilustre de seus espíritos sr. Breton e sr. Miró e sr. Duchamp de mãos dadas a Freud e Dalí. E a fala dos dois estudiosos, um de cabeça retilínea apologética e o outro de vias tortuosas dionisíacas, que viram e refletiram sobre o que ali se desenrolou com ares de coisa moderna. Posso dizer que a segunda versão do projeto Atrito encontrou um indicativo do que vem a ser o seu definitivo formato no futuro: Uma arena 'dada' e oferecida a um público atento aos movimentos daquele bando de loucos que são os leões ali no meio e que a qualquer momento, se for do interesse dos leões, pode vir a atacar o público e retirá-los de sua condição quieta e confortável de plateia e torná-los leões. O projeto Atrito, pelo que indica, a partir dos passos presentes, deve ter apenas duas regras: a de que não existe regra nenhuma a ser seguida, e a de que o fato de se ter dito que não existe regra nenhuma não deve ser levado em consideração, pois é uma afirmação ou se quer uma tentativa de ser regra. Assisti ao segundo dia de Atrito com vontade de participar de novo, um dia, com meus instrumentos, minha máquina de escrever, meus arames, minha escrita, meus materiais. Um enorme contentamento pelo sucesso do grupo inteiro, por tudo o que foi feito e da maneira como foi feito, e a espera pelas próximas edições, com outros seres que façam a vez de vítimas ou que façam a vez de leões. Ave César! Ave Panem et Circenses!

João Cirilo, artista visual.

 

Para ver vídeos do Atrito II, clique aqui

 

 

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