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"Terra sobre fogo, ventanias que teus olhos não viram", de Isabela do Lago

Publicado: Segunda, 29 de Maio de 2017, 15h30 | Última atualização em Terça, 28 de Novembro de 2017, 14h19 | Acessos: 559

"Terra sobra fogo, ventanias que teus olhos não viram" - Isabela do Lago

 

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Neste maio de 2017 comemoro 20 anos de pintura, e aqui ofereço a partilha da primeira exposição individual de minha trajetória artística. Busquei imagens que fazem parte de minhas memórias afetivas, e outros caminhos que apontem futuras armas de luta nesta terra onde a violência incendeia as ruas e apaga os corações; andei muito em busca de caminhos onde pudesse transmutar o tempo perdido em tempo redescoberto. Terra sobre fogo antes de ser uma afirmação é um caminho da busca poética de uma visão muito íntima sobre a memória de diversas pessoas idosas com quem convivi, e ainda convivo na estrada da vida, aliado a construção de pensamento da cultura tradicional de matriz africana, onde terra, fogo e vento transcendem dimensões temporais e espaciais nos acontecimentos.

Não quero falar sobre técnica, muito embora seja impossível poetizar sem ela; prefiro falar sobre a imaterialidade do sentir, a pulsação do pensar em memórias involuntárias onde o movimento criativo fluiu suavemente do olhar individual a uma valsa coletiva. E assim, somam-se a esta montagem a realização de um poema filmado, onde conto com a participação de Edne Maués no “Guião do Caçador”, realizado em nossas andanças desde 2014 Marajó adentro, mata e rios entre comunidades rurais e quilombolas, e na intervenção poética de irmãs e irmãos que se juntaram no momento final de criação da montagem para nos oferecer beberagens e cantorias.

Tempos meus que ofereço, sopros de memória e devir. Lugares por onde andei e outros que eu mesma jamais pisei, muito embora os conheça tão bem que me permito materializá-los, pois muitos são os tempos em que o vento habita; se momentos atrás havia silêncio e calmaria, em questão de segundos as folhas começam a dançar, voam os pólens das flores, papéis correm pelas ruas afora, cabelos despenteiam, ondas se erguem mar acima e florestas são incendiadas. No tempo da ventania tudo muda de lugar e muitas vezes nem percebemos, mas nossas memórias recriam sentimentos através da movimentação desses objetos, paisagens onde se dissolvem a ideia de passado, presente e futuro, onde tudo pode ser terra sobre fogo, tanto os objetos guardados quanto os retratos pintados pertencem à memória de momentos vivenciados, e documentam existências.  

A variação tônica de dispositivos sensoriais que compõe este trabalho foi feita a partir do momento em que comecei a trabalhar com a oralidade, a escuta de pessoas idosas, registrando essas pessoas em retratos e na memória dos relatos de momentos importantes de suas vidas, vivências de lutas e de tréguas, memórias políticas, experiências de fé, amores, dores, fatalidades e outras situações onde tudo o que resta de documentação é uma imagem, um som, um símbolo, fragmentos de lembrança e algumas poucas palavras onde a fala ecoa historicidade e sacralidade. A educação é passada dos mais velhos para os mais novos através de contos e cantigas; atualmente essa educação vem perdendo lugar a outras formas de viver e ver, a fala dos anciãos e anciãs vem sendo desqualificada pela juventude, gerando incompletudes de memória e prejuízos para a preservação de muitos saberes ancestrais que ainda caminham por cima da folha, por baixo da folha, em qualquer lugar.

Como diz o ditado popular, palavras o vento leva; é a essas palavras sopradas para longe que quero oferecer alguma vida, e buscar as ventanias que teus olhos não viram, de que falam as imagens produzidas para essa mostra. Mas assim como o vento pode levar a memória para lugares distantes, o fogo pode queimar os corações e a terra pode acolher e germinar as cinzas, incorporando nessas memórias novas paisagens, retratos, objetos, instalações, cânticos e sabores dotados de poética e sentimento.

                                                                                                                                                                                                                           Isabela do lago

 

 

 

 

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Serviço:

Exposição: "Terra sobre fogo, ventanias que teus olhos não viram", de Isabela do Lago

Abertura: 19 de maio de 2017

Visitas: de 19 de maio a 14 de junho, de segunda a sexta das 9h às 18h

 

 

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